Pressão, metas e precarização empurram trabalhadores ao adoecimento, alerta CNM/CUT
Reconhecimento dos riscos psicossociais nas empresas marca avanço, mas cenário exige ação imediata para conter novos afastamentos
Os afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais seguem em forte crescimento no Brasil e acendem um alerta para o movimento sindical. Dados oficiais do Ministério da Previdência Social e do INSS mostram que, apenas no primeiro semestre de 2025, foram concedidas cerca de 267 mil licenças médicas relacionadas a esse tipo de adoecimento, revelando a dimensão do problema no mercado de trabalho brasileiro.
Para Francisco Jonaci, secretário de Saúde do Trabalhador, Previdência Social e Meio Ambiente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), os números refletem a deterioração das condições de trabalho em diversos setores da economia. “A pressão por metas, as jornadas exaustivas e a precarização das relações de trabalho têm levado cada vez mais trabalhadoras e trabalhadores ao adoecimento físico e emocional”, afirma.
O avanço dos afastamentos não é um fenômeno recente. Em 2024, o país registrou mais de 470 mil licenças por transtornos mentais, o maior volume da série histórica com predominância de quadros de ansiedade, depressão e esgotamento profissional (burnout). A evolução dos dados em 2025 indica a manutenção deste patamar elevado, apontando para uma tendência preocupante.
Problema estrutural
O impacto vai além da saúde individual e atinge todo o ambiente de trabalho e a vida familiar. Para Jonaci, trata-se de um problema estrutural que exige atenção imediata do movimento sindical. “Este adoecimento afeta trabalhadores, suas famílias e a organização do trabalho como um todo. É uma realidade que exige respostas urgentes”, destaca.
Neste contexto, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01) representa um avanço importante ao estabelecer que os riscos psicossociais passem a integrar o gerenciamento de riscos das empresas. A medida reconhece que fatores ligados à organização do trabalho, como assédio moral, sobrecarga e metas abusivas, também produzem adoecimento da classe trabalhadora.
Embora os dados consolidados de todo o ano de 2025 ainda dependam da divulgação final do INSS, o cenário já é claro. “Sem políticas consistentes de prevenção e mudanças reais na gestão do trabalho, o Brasil caminha para novos recordes de afastamentos. Precisamos enfrentar esta realidade com organização e luta”, conclui Jonaci.
Sobre a NR-01
A NR-01 estabelece deveres tanto para empregadores quanto para trabalhadores, exige a elaboração e atualização do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), prioriza a eliminação dos perigos na fonte e reforça o direito do trabalhador de interromper atividades diante de risco grave e iminente.
A atualização mais recente da norma, consolidada pela Portaria MTE nº 1419/2024, reformulou o capítulo de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais ao incluir, pela primeira vez, a obrigação de identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais como estresse, assédio e sobrecarga de trabalho, dentro do PGR.
A mudança consolida a saúde mental como eixo central da política de segurança e saúde no trabalho, em nível equivalente aos riscos físicos e químicos. Após negociações entre governo, empregadores e sindicatos, o Ministério do Trabalho e Emprego decidiu adiar a aplicação das novas exigências, concedendo prazo até 25 de maio de 2026 para que as empresas se adequem, com caráter educativo e sem aplicação de multas durante esse período.
Com informações da CNM /CUT